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Apr 01, 2026

A Garotinha Olhou Para a Estranha no Parque e Perguntou: “Por Que Eu Tenho Seus Olhos?”

Naquela manhã, Curitiba parecia feita de silêncio.

Uma névoa branca cobria os pinheiros do Parque Barigui, e o frio de julho deslizava pelas alamedas como um rio invisível. Os poucos corredores que passavam pelo lago mantinham as mãos nos bolsos e os olhos baixos. Os pássaros pareciam cantar mais devagar. Até o trânsito distante chegava abafado, como se a cidade inteira estivesse respirando através de um cobertor.

Mariana Santos já não sentia o frio.

Talvez porque o frio tivesse sido substituído por algo mais profundo.

Solidão.

Ela estava sentada num banco de madeira próximo ao lago, usando apenas um casaco fino que encontrara num abrigo semanas antes. Os pés estavam úmidos. As mãos vermelhas. O cabelo escuro caía sobre o rosto.

Na lapela do casaco havia um pequeno rasgo.

Ela o observava sem realmente vê-lo.

Os últimos cinco anos de sua vida tinham desaparecido dentro de uma névoa ainda mais espessa que aquela manhã.

Não lembrava quem era.

Não lembrava de onde viera.

Não lembrava por que acordara num hospital do interior do Paraná sem documentos, sem família e sem memória.

Os médicos chamavam aquilo de amnésia traumática.

Mariana chamava de vazio.

Havia aprendido a viver dentro dele.

Às vezes trabalhava limpando restaurantes.

Às vezes servia café.

Às vezes dormia em albergues.

Outras vezes, simplesmente caminhava.

Mas existiam sonhos.

Sonhos estranhos.

Uma casa amarela.

Uma canção de Bossa Nova tocando baixinho.

Um lenço azul balançando ao vento.

E uma voz masculina dizendo seu nome.

Sempre seu nome.

Mariana.

Ela nunca via o rosto.

Apenas a voz.

Naquela manhã, estava perdida nesses pensamentos quando ouviu passos leves correndo sobre a neve fina acumulada na grama.

Virou a cabeça.

Uma menina vinha em sua direção.

Talvez oito anos.

Talvez nove.

Usava um casaco vermelho, botas pequenas e um gorro de lã bege.

Os olhos eram grandes.

Curiosos.

Brilhantes.

A criança parou diante dela.

E ficou olhando.

Sem medo.

Sem pressa.

Como se tivesse encontrado exatamente quem procurava.

Mariana sorriu de forma tímida.

— Você se perdeu?

A menina balançou a cabeça.

— Não.

— Então onde estão seus pais?

A criança continuou observando seu rosto.

Depois perguntou:

— Por que você está chorando?

Mariana levou a mão ao rosto.

Não tinha percebido.

Uma lágrima escorria por sua bochecha.

— Acho que estou apenas cansada.

A menina ficou em silêncio.

Depois deu mais um passo.

E disse algo que fez o mundo inteiro parar.

— Meu pai ainda guarda seu lenço azul.

Mariana sentiu o coração falhar uma batida.

O lago.

O vento.

O frio.

Tudo desapareceu.

Restou apenas aquela frase.

Meu pai ainda guarda seu lenço azul.

Ela ergueu lentamente os olhos.

— O quê?

A menina apontou para trás.

E foi então que Mariana o viu.

Um homem parado entre os pinheiros.

Alto.

Cabelos escuros já salpicados de grisalho.

Casaco preto.

Olhos que pareciam carregar anos demais.

Paulo Costa.

Embora Mariana ainda não lembrasse desse nome.

Embora não lembrasse de nada.

Seu coração lembrou antes da memória.

Porque algumas pessoas permanecem dentro da alma quando tudo o resto desaparece.

Ele começou a caminhar.

Devagar.

Um passo.

Depois outro.

Como alguém se aproximando de um milagre que tem medo de tocar.

A menina olhou para trás.

— Papai.

Paulo não respondeu.

Os olhos dele permaneciam presos em Mariana.

Havia lágrimas ali.

Lágrimas que um homem tenta esconder durante anos e finalmente perde a força para segurar.

Mariana sentiu o ar abandonar seus pulmões.

— Eu conheço você?

A pergunta saiu num sussurro.

Paulo parou diante dela.

Apenas alguns metros.

Apenas uma vida inteira.

E respondeu:

— Eu passei cinco anos procurando você.

A névoa parecia girar ao redor dos dois.

Mariana piscou.

Confusa.

Assustada.

Mas algo dentro dela começou a doer.

Uma dor antiga.

Esquecida.

Uma dor que tinha nome.

Saudade.

— Quem é você?

Paulo fechou os olhos por um segundo.

Quando os abriu, estavam molhados.

— Eu sou o homem que deveria ter morrido naquele acidente.

A menina olhou de um para o outro.

Sem entender completamente.

Mas entendendo o suficiente.

Porque crianças reconhecem amor muito antes dos adultos.

E então ela fez a pergunta que mudaria tudo.

A pergunta que nenhum dos dois estava preparado para ouvir.

— Se ela estava morta...

A voz da menina tremia.

Ela olhou para Mariana.

Depois para Paulo.

E finalmente perguntou:

— Então por que eu tenho os olhos dela?

Mariana sentiu o mundo desaparecer sob seus pés.

Porque, pela primeira vez, percebeu algo que jamais havia notado.

A menina realmente tinha os seus olhos.

Exatamente os seus olhos.

E naquele instante, enquanto a neve caía suavemente sobre Curitiba, uma verdade enterrada durante anos começou a despertar.

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Uma verdade capaz de devolver uma vida.

Ou destruir todas as mentiras construídas para escondê-la.

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