O Homem Que Tentaram Apagar — Ela Ajoelhou na Calçada e Entregou um Anel ao Mendigo

Capítulo 1 — O Mendigo da Avenida Atlântica
O Rio de Janeiro brilhava naquela tarde como uma cidade que não acreditava em tragédias.
O sol refletia nos vidros dos prédios de Copacabana. O mar respirava em ondas lentas. Vendedores ambulantes caminhavam pelo calçadão oferecendo água de coco, biscoito de polvilho e mate gelado. Ao longe, um violão tocava uma antiga bossa nova, e a melodia se espalhava pelo ar quente como uma lembrança impossível de alcançar.
Mas para Madalena Albuquerque, nenhuma daquelas belezas existia.
Ela estava sentada no banco traseiro de um SUV preto, olhando pela janela sem realmente ver a praia.
Usava um vestido elegante, joias discretas e óculos escuros caros.
Por fora, parecia uma mulher que possuía tudo.
Por dentro, carregava um vazio que nem o tempo conseguira preencher.
Cinco anos.
Cinco anos desde a morte de Gabriel.
Seu marido.
Seu melhor amigo.
O homem que desaparecera em uma noite de chuva na estrada entre Rio e Petrópolis.
O carro fora encontrado destruído.
O corpo nunca apareceu.
Mas a polícia encerrara o caso.
Acidente.
Fatalidade.
Fim.
Seu sogro, Augusto Albuquerque, insistira para que ela seguisse em frente.
— Gabriel não voltará, Madalena.
Durante anos ela tentou acreditar.
Tentou trabalhar.
Viajar.
Sorrir.
Respirar.
Mas a saudade era uma espécie de mar interno.
Você pode aprender a nadar.
Nunca aprende a secá-lo.
O trânsito parou próximo a um semáforo.
Madalena apoiou a testa contra o vidro.
Foi então que o viu.
Um homem sentado na calçada.
Barba longa.
Roupas rasgadas.
Pele marcada pelo sol.
Os cabelos desgrenhados escondiam parte do rosto.
Ao redor dele, as pessoas passavam sem olhar.
Como se fosse invisível.
Como se não existisse.
Mas algo fez Madalena prender a respiração.
O modo como ele segurava uma pequena cruz de madeira.
O jeito de inclinar a cabeça.
A curva dos ombros.
Detalhes absurdos.
Pequenos demais.
Mas suficientes para fazer seu coração acelerar.
— Pare o carro.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— Senhora?
— Pare o carro.
O homem obedeceu imediatamente.
Antes que pudesse pensar melhor, Madalena já estava saindo do veículo.
Os saltos bateram contra o calçadão.
O som do mar pareceu desaparecer.
Tudo ficou distante.
Restava apenas aquele homem.
Ele continuava sentado.
Olhando para o horizonte.
Sem perceber que alguém se aproximava.
Madalena sentiu as mãos tremerem.
Era impossível.
Completamente impossível.
Mas, quanto mais se aproximava, mais difícil ficava respirar.
Porque aquele rosto...
Mesmo escondido pela barba.
Mesmo envelhecido.
Mesmo destruído pelos anos.
Parecia o rosto que ela via todas as noites nos sonhos.
Gabriel.
O homem levantou os olhos.
Por um segundo, eles se encararam.
Madalena sentiu o mundo inclinar.
Os mesmos olhos castanhos.
A mesma expressão calma.
O mesmo olhar que um dia a esperou no altar de uma igreja em Santa Teresa, enquanto um quarteto tocava uma antiga canção de Tom Jobim.
As lágrimas chegaram antes que ela pudesse impedi-las.
— Gabriel...
O homem franziu a testa.
Confuso.
Como alguém ouvindo um idioma esquecido.
— Desculpe — respondeu. — Acho que me confundiu com outra pessoa.
A voz.
Era a voz dele.
Mais rouca.
Mais cansada.
Mas dele.
Madalena levou a mão à boca.
O coração batia tão forte que doía.
— Não...
O homem se levantou devagar.
— Senhora, eu não conheço você.
Ao redor deles, algumas pessoas começaram a observar.
O motorista aproximou-se.
Preocupado.
— Dona Madalena...
Ela não ouviu.
Os olhos permaneciam fixos naquele rosto.
Então percebeu algo.
A mão esquerda.
Nua.
Sem aliança.
Sem o anel que Gabriel jamais tirava.
O anel de ouro branco gravado por dentro com uma frase simples:
“Até o último amanhecer.”
Madalena sentiu um impulso impossível de controlar.
Abriu a bolsa.
Procurou desesperadamente.
Até encontrar uma pequena caixa de veludo.
Durante cinco anos ela carregara aquela caixa.
Todos os dias.
Como quem carrega uma última esperança.
Dentro estava o anel.
O anel que os bombeiros encontraram preso entre destroços do carro.
Ela o segurou.
As mãos tremiam tanto que quase o deixou cair.
O homem observava sem entender.
Madalena deu um passo à frente.
Depois outro.
E então, diante de dezenas de desconhecidos na Avenida Atlântica, ajoelhou-se.
O silêncio espalhou-se ao redor.
O trânsito parecia distante.
O mar parecia distante.
O mundo inteiro parecia distante.
Restava apenas ela.
E o homem que deveria estar morto.
Com lágrimas correndo livremente pelo rosto, Madalena ergueu o anel.
— Se você não é Gabriel...
A voz falhou.
— Então me diga por que isto ainda pertence a você.
Ela colocou o anel na palma da mão dele.
O homem olhou.
Confuso.
Depois tocou o metal.
E naquele instante...
Algo mudou.
Seu corpo inteiro estremeceu.
A respiração falhou.
A mão voou até a cabeça.
Imagens surgiram como relâmpagos.
Uma igreja.
Uma mulher sorrindo.
Uma aliança.
Uma estrada.
Faróis.
Chuva.
Um impacto.
Escuridão.
E uma voz.
A voz dela.
Chamando seu nome.
O homem cambaleou.
Madalena correu para segurá-lo.
As lágrimas já não podiam ser contidas.
— Olhe para mim.
Ele tentou focar o rosto dela.
Como alguém tentando enxergar através da neblina.
Então seus lábios se moveram.
E uma única palavra escapou.
— Madalena...
Ela desabou.
Porque naquele instante compreendeu algo terrível.
Gabriel nunca a abandonara.
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Alguém havia roubado sua vida.
E agora, depois de cinco anos, o homem que tentaram apagar acabara de encontrar o caminho de volta.